Resenha Espírita
Brasília/DF - Brasil
Edição: Setembro/2008
Última atualização: 17/setembro/2008
Matérias

O Espírita na Sociedade
Celso Martins

O Espírita na Sociedade

Manuscrito Inédito de Kardec

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Mais do que nunca, o mundo precisa da trava da ação varonil dos bons.

Vem da filosofia grega o dito ser o homem um ser político; quer dizer, o ser humano, conforme define o Código Civil Brasileiro, incluindo aí a mulher também, é gregário, vive em grupo, não se sustenta a si viver isolado. E O Livro dos Espíritos (Q. 766) deixa isto bem claro quando os Espíritos Superiores declaram textualmente: "Deus fez o homem para viver em sociedade. Deus não deu inutilmente ao homem a palavra e todas as outras faculdades necessárias à vida de relação". E na questão seguinte esclarece que "devem todos concorrer para progresso, ajudando-se mutuamente.

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Há outra questão do mesmo livro na qual o Mestre lionês quer saber a razão pela qual os maus exercem geralmente maior influência sobre os bons. É a Q. 932. E os Orientadores do Mundo Maior esclarecem de modo muito incisivo ao anotarem: "Pela fraqueza dos bons. Os maus são instigantes e audaciosos; os bons são tímidos. Estes, quando quiserem, assumirão a preponderância".

Anos mais tarde, Dom João Bosco, atualmente santo na Igreja Católica, iria mais longe ao proclamar que a audácia dos maus cresce na medida da covardia dos bons (grifei covardia). Então a Kardec é dito que os que procuram ser melhores são tímidos, acanhados, entibiam-se. O educador italiano nos chama de covardes. Como dizia o saudoso professor Leopoldo Machado, precisamos nos meter em brios.

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Mais do que nunca, o mundo (escrevo em maio de 2008) precisa da trava da ação varonil dos bons. Jesus, e tinha de ser Ele, no Sermão do Monte, declara bem categórico: "Seja o vosso falar sim, sim; não, não". Mateus cap. 5 vers.37. Exatamente por agir assim o Cristo foi pregado na cruz, após um horrível julgamento que violou todo o procedimento jurídico dos judeus de sua época. Por agir assim Tiradentes foi enforcado, João Huss (o futuro Zamenhof) e a médium Joanna D'Arc foram queimados, Gandhi e Martin Luther king Jr. foram alvejados por balas assassinas, Monteiro Lobato e Graciliano Ramos amarguraram meses no cárcere.

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Bezerra de Menezes foi abolicionista. Zé Arigó foi preso porque curava sem cobrar um centavo de seus clientes. Freitas Nobre foi obrigado a exilar-se na Bélgica por ocasião do movimento de 1964. Sob a direção do Sebastião Herculano de Mattos, em Nova Iguaçu o professor Leopoldo Machado, rezando um Pai Nosso, enfrentou, doente, a petulância de ilustre personalidade eclesiástica que vinha com um Código Civil para combater a heresia espírita. Meu Deus! Heresia Espírita! Lembro-me bem do Sylvio Brito Soares defendendo esta heresia nossos programas de domingo de manhã, dirigidos por Geraldo de Aquino, inicialmente, pela Rádio Clube do Brasil e, depois, na Tamoio e, por fim, na Emissora da Fraternidade. É bom que esta nova geração de espíritas saibam destas coisas. O próprio Kardec lança O Livro dos Espíritos, pregando abertamente a liberdade durante a ditadura de Luís Napoleão Bonaparte, ou Napoleão III.

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Como silenciar-me diante do que vemos no Brasil atual?

O Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal, em 2001, estimava em US$ 9,6 bilhões a quantia que o Brasil perdia anualmente em razão do contrabando, quantia esta suficiente para dar um salário mínimo de US$ 100,00 a 96 milhões de brasileiros, conforme denuncia de Deputado.

Tenho mais dados à mão. Mas tenho receio de fazer-me maçante.

É claro que não me passa desassisadamente pelo bestunto transformar um periódico espírita em mero panfleto político-partidário. Seria loucura intentá-lo. Caber-me-ia buscar outros órgãos, como aliás, tenho feito desde jovem, eu que nascido em 1942, colaboro em jornais desde 1961. Todavia, não quero ser acoimado de tímido, de acanhado, de conivente, de covarde diante da Globalização, iniciada quando Colombo e Cabral conquistaram a América, com o genocídio dos astecas, dos maias, dos incas pelos espanhóis de um Fernão Cortês, processo que se tornou mais intenso depois da Queda do Muro de Berlim (em 1989) e do esfacelamento da União Soviética, instalada em 1922 e desmoronada em 1991. Resultado: a devastação da Amazônia, o desemprego, a miséria de mais de 50% de brasileiros debaixo da linha de pobreza, como denuncia a ONU. Não invento nada; apenas transcrevo o que você lê nos jornais, ouve nas rádios e sobretudo vê na televisão.

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Faço a minha parte. Mínima, bem o sei. Minúscula. Microscópica. Mas não sou omisso. Ser espírita é também ser cidadão como o foi, dentre outros, o médium Telêmaco Gonçalves Maia, a quem conheci (salvou-me a esposa com uma receita mediúnica) que envergou sua farda de brigadeiro da Aeronáutica (deputado estadual que era) e ficou torrando ao solo carioca da Rua da Relação para declarar, altivo, sem receio de prisão, que era espírita durante o Estado Novo, de Getúlio Vargas, em 1937.

Como professor (aposentado) de Biologia e autor de um livro sobre Ecologia premiado em 1973 pelo Ministério da Educação e Cultura, sei que o mundo tem de tudo para alimentar a todos. O então presidente da ONU declarou que em 2000 o mundo produziu 10% a mais de alimentos do que o necessário; e a Humanidade conheceu a fome (e ela se amplia agora em 2008) por egoísmo humano. Fico por aqui.

Celso Martins nasceu no Rio de Janeiro em 1942. É escritor e jornalista espírita conhecido em todo o país. Autor e co-autor em dezenas de livros publicados no Brasil e no exterior. Além de artigos veiculados por diversos periódicos.

É professor de Biologia e de Física, atualmente aposentado, e licenciado em História Natural e Pedagogia. Esperantista desde 1956, atuou no campo das artes como poeta, sonetista, trovador e contista.

Dedica-se à difusão do Espiritismo na tribuna, na Rádio Rio de Janeiro e pela TV Bandeirantes. Vem colaborando com a Resenha Espírita desde os primeiros tempos.

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Manuscrito Inédito de Kardec
Enrique Eliseo Baldovino
henriquedefoz@uol.com.br

O Espírita na Sociedade

Manuscrito Inédito de Kardec



Analisamos neste artigo as informações extraídas de uma rara Carta manuscrita de Allan Kardec (foto do manuscrito ao lado)(1), até agora não editada em nenhum livro, inteiramos-nos como foram os primórdios históricos da fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas (SPEE), o primeiro Centro Espírita do mundo, fundado em 1º de abril de 1858, e dirigido pelo próprio Codificador, Sociedade que está completando o seu célebre Sesquicentenário. A seguir transcrevemos o original francês escrito do próprio punho de Kardec da citada Carta Inédita, traduzindo abaixo para o português a correspondência que faz alusão à Sociedade de Paris, onde destaca-se uma nova informação revelada pelo citado Manuscrito do Codificador, que grifamos com letra itálica e negrita:

ORIGINAL FRANCÊS

A Monsieur le Préfet de Police de la ville de Paris. Monsieur le Préfet: Les membres fondateurs du Cercle Parisienne des Études Spirites qui ont sollicité auprès de vous l’autorisation nécessaire pour se constituer en Société, ont l’honneur de vous prier de vouloir bien leur permettre des réunions préparatoires en attendant l’obtention de l’autorisation régulière. J’ai l’honneur d’être avec le plus profond respect, Monsieur le Préfet, votre très humble et très obéissant serviteur, H. L. D. Rivail dit Allan Kardec. Rue des Martyrs nº 8.

TRADUÇÃO AO PORTUGUÊS

Ao Sr. Prefeito de Polícia da cidade de Paris. Sr. Prefeito: Os membros fundadores do Círculo Parisiense de Estudos Espíritas, que solicitaram junto a vós a autorização necessária para constituir-nos em Sociedade, temos a honra de pedir-vos que consintais permitir-nos reuniões preparatórias, enquanto esperamos a autorização regular. Com o mais profundo respeito, Sr. Prefeito, tenho a honra de ser vosso muito humilde e muito obediente servidor, H. L. D. Rivail, dito Allan Kardec. Rua dos Mártires nº 8. (Tradução nossa.)

COMENTÁRIOS

Note-se, então, o nome provisório – Cercle Parisienne des Études Spirites – que Kardec dá ao Círculo Espírita antes de constituir-se em Sociedade, Grupo que já se reunia todas as terças-feiras à Rua dos Mártires nº 8 – segundo andar, ao fundo do pátio –, residência particular de Rivail em Paris, e cujas reuniões ocorriam desde aproximadamente seis meses antes(2) da fundação da Société Parisienne des Études Spirites, que aconteceu em 1º de abril de 1858. A partir da transformação do Cercle em Société, esta viria a ter um papel de grande relevância histórica e doutrinária no Movimento Espírita Nacional e Internacional, como sendo a primeira Sociedade Espírita constituída do mundo. Por isso concluímos que todo esse importante Movimento começou com o pioneiro Círculo Parisiense de Estudos Espíritas, núcleo de vanguarda, também coordenado pelo mestre de Lyon.

Outra observação digna de nota é a importante e corajosa identificação que o eminente Professor Hippolyte-Léon-Denizard Rivail faz ao assinar a Carta com o seu ilustre sobrenome e com seu digno pseudônimo respectivamente (Rivail-Kardec), oferecendo certamente o seu aval de pessoa séria e respeitada ante a autoridade municipal (Prefeito de Polícia de Paris) e nacional (Ministro do Interior), especificamente para a abertura da Sociedade, na qual deveriam dispor por lei de uma autorização legal e oficial para o encontro de um maior número de pessoas das que se reuniam em um Círculo.

CONTEXTO SOCIAL FRANCÊS DO SÉCULO XIX

(3)Um revolucionário nacionalista italiano chamado Félix Orsini, perpetrou um atentado em 14 de Janeiro de 1858 contra a vida de Napoleão III que, por pouco, não foi assassinado, sendo Orsini condenado à pena de morte pela guilhotina em 13 de março de 1858, isto é, quase vinte dias antes da fundação da SPEE. Este episódio provocou a sanção da Lei de Segurança Geral, que facultava ao Ministro do Interior a transladar ou exilar a qualquer cidadão francês que fosse reconhecido culpado de conspirar contra a segurança do Estado. Era uma lei rigorosa, que não se derrogou senão doze anos depois, em 1870. Os tempos então vividos eram de convulsão política; França estava sob a recente lei de segurança de 19 de fevereiro de 1858, sancionada por aquele atentado, lei que não permitia a reunião de mais de 20 pessoas em espaço fechado. O estatuto social da SPEE devia ser submetido às autoridades(4) sob este severo regime que, ante as novas idéias, colocariam sua atenção sobre o objeto e os nomes dos seus componentes.

A respeito disto, deixemos continuar falando ao notável Codificador(2): (...) Então, foi necessário obter uma autorização legal, para evitar problemas com as autoridades. O Sr. Dufaux, que conhecia pessoalmente ao Prefeito de Polícia, encarregou-se da petição. A autorização dependia também do Ministro do Interior, que era o general X, quem – sem que o soubéssemos – simpatizava com nossas idéias, sem conhecê-las completamente; graças à sua influência, a autorização pôde ser conseguida em quinze dias, que teria levado três meses se seguisse o trâmite usual. (...) [Tradução nossa do original francês.]

Eis a importância e o significado histórico desse inédito documento kardequiano. Nossas mais sinceras congratulações ao Instituto Canuto Abreu e ao CEI pela difusão aberta desta valiosa Carta(1), que permite compreender mais profundamente a rica História do Espiritismo – e do Movimento Espiritista – para esclarecimento integral das gerações atuais e futuras.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

(1) Conselho Espírita Internacional, com reprodução do original francês do Manuscrito Inédito de Kardec, cedido gentilmente pelo CEI e pelo Instituto Canuto Abreu.

(2) KARDEC, Allan. Fondation de la Société Spirite de Paris, 1er avril 1858. In: ______. Œuvres Posthumes. Paris: USFF. 2ª parte, p. 231 (§§ 2º e 3º).

(3) Contexto extraído da nota do tradutor nº 150 da Revista Espírita: Periódico de Estudios Psicológicos (Año 1858), de Allan Kardec, traduzida do francês ao espanhol por Enrique Eliseo Baldovino, Ediciones CEI, 2005, p. XLV.

(4) BARRERA, Florentino. In: ______. La Sociedad de París: Société Parisienne des Études Spirites: 1858-1896. 2ª ed. revisada e aumentada. Buenos Aires: VIDA INFINITA, 2002. P. 14.

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