Resenha Espírita
Brasília/DF - Brasil
Edição: Março/2009
Última atualização: 1º/agosto/2009
Matérias

Devagar com o Andor
Celso Martins

Devagar com o Andor

Ante o Sol Eterno

Álbum Materno


Aprecio muito os ditados populares, dos quais se destaca este que é por demais conhecido: Devagar com o andor que o santo é de barro...

É claro que não ignoro o desejo que leva muita gente adiante querer levar certas recomendações espíritas seja sincero e digno de meu respeito escrupuloso. Todavia, há que não se cair no erro e, mesmo, no ridículo, porque, aí, os adversários gratuitos poderão cair na gargalhada, e com justa razão. São os espíritas exaltados, conforme classificação de Kardec em O Livro dos Médiuns. Eles dirão (e não poderemos refutar) que não temos a cabeça no lugar. Que somos um bando de fanáticos. Que sem conhecer este mundo já nos arvoramos a explicar o outro. Limitar-me-ei a dois exemplos que li e ouvi, um há mais de 20 anos e outro, em outubro de 2008.

Num livro em três pequenos volumes sobre o aborto (ou melhor dito, contra o abortamento provocado), um autor encarnado (perdão não declinar o nome) dizia que numa reunião de desobsessão um espírito dizia que estava com uma missão altamente importante para o mundo. Mas sua jovem mãe cometeu o aborto. E ele então passou a odiá-la violentamente.

Cabe perguntar duas questões: primeiro: como é que a Espiritualidade Superior iria confiar a uma adolescente inexperiente a missão de ser mãe de um espírito que se dizia (ou se julgava) altamente missionário? E segundo: um Espírito por demais elevado iria odiar quando outro, menos avançado, pensaria em perdoar? E este livro sobre os abortados andou sendo muito vendido por aí. Louvo a intenção do autor (eu também sobre este crime me posiciono e cuidemos não seja introduzido na lei brasileira); mas acho infantil o argumento invocado.

Num programa de rádio (agora facilmente ouvido pela Internet) ouvi médico oncologista (logo, um cientista), que se dizia espírita, alegar ter o peixe (e demais seres inferiores, e eu diria seres anteriores, conforme livro A Alma dos Animais, calcado na pequena Biologia de que dei aulas e ainda sou aluno relapso) tem alma coletiva. Argumento: Quando você se aproxima de um cardume, o bando se desfaz indo um para cada lado do seio aquático. Pergunto: Então os homens também têm alma coletiva. Se você gritar na rua: “Fogo!” a multidão se dispersa também.

Mais um caso que ouvi em outubro de 2008. A médium dizia que um médium do seu conhecimento foi a um matadouro e, ao ver a vaca ser levada ao abate, nela incorporou e lhe sentiu as dores do massacre! (E como fica a questão da diferença de sintonia do perispírito entre o homem e do boi? Indago eu).

Tenho mais casos a contar mas fico por aqui. Pensemos nisso. Pensemos já!

Celso Martins (Cx. P. 61003 Rio de Janeiro RJ Cep 21615-970)

Na Edição de Março de 2008 da Resenha Espírita, Matéria “O Espírita na Sociedade”, foi sugerido que João Huss reencarnou como Zamenhof. Na verdade, João Huss (o futuro Allan Kardec), seguiu a seqüência: Elias, João Batista, Allan Kardec (druida), João Huss e o professor Rivail (pseudômino Allan Kardec). Por outro lado, Helil foi Frei Henrique de Coimbra, da Escola de Sagres e, posteriormente, Zamenhof (autor do Esperanto). Dois espíritos em diferentes fases da história da raça humana.

Corrigido pelo autor

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Ante o Sol Eterno
Emmanuel, Escrínio de Luz, psic. Chico Xavier, Ed. O Clarim de Matão, SP

Devagar com o Andor

Ante o Sol Eterno

Álbum Materno


“Vim trazer fogo à Terra”
— disse-nos o Senhor.

Semelhantes palavras do Divino Mestre podem induzir o discípulo invigilante aos mais estranhos pensamentos.

É preciso, porém, exumar o espírito da letra, na alimentação de nossas almas, tanto quanto , no fruto, para o serviço da refeição, liberamos a polpa do envoltório que a constringe.

Jesus não se propunha ombrear com o petroleiro comum, intérprete da indisciplina e do desespero.

Cristo trazia-nos calor ao espírito enregelado na indiferença e no vício de séculos incessantes...

Chama viva para extinguir as trevas de nosso passado obscuro e delituoso, lume para clarear a senda que nos cabe trilhar nos sacrifícios do presente, a caminho do grande porvir que a vida nos reserva...

Flama de brio restaurador com que nos cabe atender aos compromissos esposados no esforço regenerativo e braseiro rubro de responsabilidade, que, situado no campo de nossa consciência, impeça a germinação ou o crescimento do joio venenoso da crueldade e do ódio...

Labareda de fé renovadora, suscetível de purificar-nos o sentimento e soerguê-lo à prática da caridade genuína, e pira ardente de amor que nos aprume a alma arrojada ao pó de velhas desilusões, a fim de que possamos penetrar, como filhos de Deus, o santuário de nossa sublimação para a divina imortalidade...

Se ouviste, pois, a palavra de Jesus, decerto conduzes contigo não mais o frio do desânimo ou a paralisia da ociosidade e da queixa, porque terás inflamado o próprio coração, ao sol glorioso da compreensão e do trabalho incessantes, única força capaz de levantar-nos, enfim, do antigo vale de negação e morte.

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Álbum Materno
Irmão X, Luz no Lar, psic. Chico Xavier, Ed. FEB

Devagar com o Andor

Ante o Sol Eterno

Álbum Materno


...E nós respigamos alguns tópicos do álbum repleto de fotos, que descansava na penteadeira de Dona Silvéria Lima, ao lermos enternecidamente a história do filho, que ela própria escrevera.

1941 - Outubro, 16 - Meu filho nasceu, no dia 12. Sinto-me outra. Que alegria! Como explicar o mistério da maternidade? Meu Deus, meu Deus! ... Estou transformada, jubilosa! ...

Outubro, 18 - Meu filho recebeu o nome de Maurício. Aos seis dias de nascido, parece um tesouro do Céu em meus braços! ...

Outubro, 20 - Recomendei a Jorge trazer hoje um berço de vime, delicado e maior. O menino é belo demais para dormir no leito de madeira que lhe arranjamos. Coisa estranha!... Jorge, desde que se casou comigo, nada reclamou. .. Agora, admite que exagero. Considerou que devemos pensar nas crianças menos felizes. Apontou casos de meninos que dormem no esgoto, mas, que temos nós com meninos de esgoto? Caridade!... Caridade é cada um assumir o desempenho das próprias obrigações. Meu marido está ficando sovina. Isso é o que é ...

1942 - Novembro, 11 - Mauricinho adoeceu. Sinto-me enlouquecer ... Já recorri a seis médicos.

1943 - Dezembro, 15 - O pediatra aconselhou-me deixar a amamentação e mandou que Mauricinho largue a chupeta. Repetiu instruções, anunciou, solene, que a educação da criança deve começar tão cedo quanto possível. Essa é boa! Eu sou mãe de Mauricinho e Mauricinho é meu filho. Que tem o médico de se intrometer? Amamento meu filho e dou-lhe a chupeta, enquanto ele a quiser.

1944 - Março, 13 - Mauricinho, intranquilo, arranhou, de leve, o rosto da ama com as unhas. Brincadeira de criança, bobagem. Jorge, porém, agastou-se comigo por não repreendê-Io. Tentou explicar- me a reencarnação. Assegurou que a criança é um Espírito que já viveu em outras existências, quase sempre tomando novo corpo para se redimir de culpas anteriores, e repisou que os pais são responsáveis pela orientação dos filhos, diante de Deus, porque os filhos (palavras do coitado do Jorge) são companheiros de vidas passadas que regressam até nós, aguardando corrigenda e renovação ... Deu-me vontade de rir na cara dele. Antes do casamento, Jorge já andava enrolado com espíritas . Reencarnação! . .. Quem acredita nisso? Balela... Chega um momento de nervosismo, a criança chora, e será justo espancá-Ia, simplesmente por essa razão?

1946 - Março, 15 - Jorge admoestou-me com austeridade. Parecia meu avô, querendo puxar-me as orelhas. Declarou que não estou agindo bem. Acusou-me. Tratou-me como se eu fôsse irresponsável. Tem-se a impressão de que é inimigo do próprio filho. Queixou-se de mim, alegou que estou deixando Maurício crescer como um pequeno monstro (que palavra horrível!), tão só porque o menino, ontem, despejou querosene no cão do vizinho e ateou fogo ... Era um cachorro intratável e imundo. Certamente que não estou satisfeita por haver Maurício procedido assim, mas sou mãe... Meu filho é um anjo e não fêz isso conscientemente. Talvez julgasse que o fogo conseguisse acabar com a sujeira do cão.

1948 - Abril, 9 - Crises de Maurício. Quebrou vidraças e pratos, esperneou na birra e atirou um copo de vidro nos olhos da cozinheira, que ficou levemente machucada, seguindo para o hospital ... Jorge queria castigar o menino. Não deixei. Discutimos. Chorei muito. Estou muito infeliz.

1950 - Setembro, 5 - A professora de Maurício veio lastimar-se. Moça neurastênica. Inventou faltas e mais faltas para incriminar o pobre garoto. Informou que não pode mantê-Io, por mais tempo, junto dos alunos. Mulher atrevida! Pintou meu filho como se fôsse o diabo. Ensinei a ela que a porta da rua é serventia da casa. Deixa estar! Ela também será mãe. .. Que bata nos filhos dela! ...

1952 - Maio, 16 - Maurício já foi expulso de três colégios. Perseguido pela má sorte o meu inocentinho! ... Jorge afirma-se cansado, desiludido ... Já falou até mesmo num internato de correção. Meu Deus, será que meu filho somente encontre amor e refúgio comigo? Tão meigo, tão bom! ... Prefiro desquitar-me a permitir que Jorge execute qualquer idéia de punição que, aliás, não consigo compreender. .. Meu filho será um homem sem complexos, independente, sem restrições... Quero Maurício feliz, feliz! ...

1956 - Meu marido quer empregar nosso filho numa casa de móveis. Loucura! ... Acredita que Mauricinho precisa trabalhar sob disciplina. Que plano!. .. Meu filho com patrão ... Era o que faltava! . .. Temos o suficiente para garantir-lhe sossego e liberdade.

1957 - Janeiro, 14 - Jorge está doente. O médico pediu para que lhe evitemos dissabores ou choques. Participou-me, discreto, que meu marido tem o coração fatigado, hipertensão. Desde o ano passado, Jorge tem estado triste, acabrunhado com as calúnias que começam a aparecer contra o nosso filhinho. Amigos-ursos fantasiaram que Maurício, em vez de frequentar o colégio, vive nas ruas, com vagabundos. Chegaram ao desplante de asseverar que meu filho foi visto furtando e, ainda mais ... Falaram que ele usa maconha em casas suspeitas. Pobre filho meu!... Sendo filho único, Maurício necessita de ambiente para estudar, e se vem, alta madrugada, para dormir, é porque precisa do auxílio dos colegas, nas várias residências em que se reúnem com os livros.

1958 - Outubro, 6 - Jorge ficou irado, porque exigi dele a compra de um carro para Maurício, como presente de aniversário. Brigou, xingou, mas cedeu ...

1959 - Junho, 15 - Estou desesperada. Jorge foi sepultado ontem. Morreu apaixonado, diante da violência do delegado policial que intimou Mauricinho a provar que não estava vendendo maconha. Amanhã, enviarei um advogado ao Distrito. Se preciso, processarei o chefe truculento ... Ninguém arruinará o nome de meu filho, que é um santo ... Oh! meu Deus, como sofrem as mães! ...

1960 - Agosto, 2 - Duas mulheres me procuraram, com a intenção de arrancar-me dinheiro. Disseram que meu filho lhes surripiou jóias. Velhacas e mandrionas. Maurício jamais desceria a semelhante baixeza. Dou-lhe mesada farta. Expulsei as chantagistas e, se voltarem, conhecerão as necessárias providências.

1961 - Fevereiro, 22 - Nunca pensei que o nosso velho amigo Noel chegasse a isso! ... Culpar meu filho! Sempre a mesma arenga... Maurício na maconha. Maurício no furto! Agora é um dos mais antigos companheiros de meu esposo que vem denunciar meu filho como incurso num suposto crime de estelionato, comunicando-me, numa farsa bem tramada, que Maurício lhe falsificou a letra num cheque, roubando-lhe trezentos contos. .. Tudo perseguição e mentira. Já ouvi dizer que Noel anda caduco. Usurário caminhando para o hospício. Essa é que é a verdade. .. Sou mãe! .. ' Não permitirei que meu filho sofra; nunca admiti que alguém levantasse a voz contra ele. .. Maurício nasceu livre, é livre, faz o que entende e não é escravo de ninguém. Estou revoltada, revoltada! ...

Nesse ponto, terminavam as confidências de Dona Silvéria, cujo corpo estava ali, inerte e ensanguentado, diante de nós, os amigos desencarnados, que fôramos chamados a prestar-lhe assistência. Acabara de ser assassinada pelo próprio filho, obsidiado e sequioso de herança.

Enquanto selecionávamos as últimas notas do álbum singular, Maurício, em saleta contígua, telefonava para a Polícia, depois de haver armado hàbilmente a tese do suicídio.

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